Ciência e tecnologia

Spotify aposta em IA para criar playlists que entendem o seu momento

O Spotify decidiu adicionar mais “vibes” à experiência dos seus usuários. Nesta quinta-feira, a gigante do streaming lançou o recurso “Prompted Playlist” (algo como Playlist via Prompt), uma ferramenta impulsionada por inteligência artificial que permite tocar em um sentimento ou memória específica para construir um mix totalmente personalizado. A novidade agora está disponível em fase beta para assinantes Premium nos Estados Unidos e no Canadá, com a expansão programada para ocorrer até o fim do mês. A empresa já havia iniciado os testes da funcionalidade em dezembro, na Nova Zelândia.

Segundo Sulinna Ong, chefe global editorial do Spotify, a demanda por esse tipo de facilidade é real. “Ouvimos dos ouvintes o tempo todo que eles adoram playlists, mas criar as suas próprias pode parecer uma tarefa assustadora”, afirmou em comunicado. A proposta é remover essa barreira, permitindo que a curadoria seja feita através de comandos de linguagem natural, transformando intenções vagas em seleções musicais concretas.

Como funciona a nova ferramenta

Diferente das listas geradas automaticamente pelo algoritmo tradicional, a Prompted Playlist busca traduzir momentos difíceis de definir. As listas podem ser curadas para atividades muito específicas. O comunicado da empresa cita exemplos detalhados, como pedir “pop e hip-hop de alta energia para uma corrida de 5km de 30 minutos, mantendo um ritmo constante antes de relaxar com músicas mais calmas”. O sistema permite ainda refinar os pedidos para incluir artistas específicos ou períodos de tempo.

Para quem sofre com o bloqueio criativo na hora de digitar, os editores da empresa criaram exemplos que ficam sob a aba de “ideias”. As possibilidades variam desde pedidos por faixas inspiradas no final da série Stranger Things até solicitações funcionais, como uma lista para ajudar a aprender espanhol, misturando sucessos populares com faixas mais lentas para facilitar a compreensão da letra. Molly Holder, vice-presidente de personalização, destaca que a música não é passiva. Segundo ela, os usuários não querem mais apenas que a plataforma os entenda; eles querem “moldar ativamente sua própria experiência”.

Diferenciais e inteligência de dados

É importante não confundir essa novidade com o recurso anterior, denominado apenas “AI Playlist”. A nova Prompted Playlist traz evoluções significativas: ela pode ser agendada para se atualizar diariamente ou semanalmente e leva em consideração todo o histórico de audição do usuário, desde a primeira faixa reproduzida na conta. Além disso, a IA cruza esses dados pessoais com informações em tempo real sobre tendências, cultura e história da música.

Um detalhe que adiciona uma camada extra de personalização — e que pode ser tanto útil quanto irritante, dependendo do usuário — é que cada recomendação de música vem acompanhada de uma breve descrição explicando o motivo daquela escolha. Em testes práticos, ao solicitar uma playlist de pop pós-anos 90 focada em remixes para uma caminhada, o resultado se mostrou preciso, entregando a atmosfera solicitada e permitindo a descoberta de novas faixas.

Contexto de mercado e mudanças corporativas

O lançamento ocorre em um momento de movimentação intensa para a empresa. O Spotify tem se inclinado fortemente para a inteligência artificial, anunciando investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento de produtos em parceria com grandes gravadoras, incluindo Sony Music Group, Universal Music Group e Warner Music Group. No entanto, o cenário não é feito apenas de inovações tecnológicas.

Paralelamente às novas funcionalidades, o Spotify anunciou um aumento de preço para a assinatura Premium nos EUA. A partir de fevereiro, o valor mensal subirá de 11,99 para 12,99 dólares. Além das questões financeiras, a empresa passa por reestruturações de liderança e polêmicas éticas. Em 1º de janeiro, o fundador Daniel Ek deixou o cargo de CEO para assumir a função de presidente executivo. No ano passado, a companhia enfrentou críticas severas devido ao investimento de Ek na firma de tecnologia de defesa Helsing, onde ele atua como presidente. A controvérsia levou diversos artistas, como Hotline TNT, Deerhoof e Xiu Xiu, a retirarem seus catálogos da plataforma em protesto.

Ainda assim, com a introdução de clipes musicais para assinantes Premium na América do Norte em dezembro e o lançamento contínuo de ferramentas de IA como o DJ e o daylist, o Spotify deixa claro que sua estratégia para desafiar concorrentes como o YouTube e manter sua base de usuários passa, inevitavelmente, por uma experiência de descoberta musical cada vez mais intencional e tecnológica.