Entretenimento

O Audiovisual Sul-Coreano em Duas Frentes: O Domínio dos Streamings e a Luta por Redenção em Cannes

A Coreia do Sul consolidou de vez sua presença no entretenimento global com narrativas que transitam com facilidade entre o apelo popular e discussões densas. Um exemplo claro dessa força é “Beleza Verdadeira”, um dorama que ultrapassou as fronteiras de seu país de origem para se tornar um verdadeiro fenômeno. A trama utiliza o ambiente escolar para mergulhar em temas extremamente sensíveis, abordando a autoaceitação, a saúde mental, a depressão e até mesmo o suicídio, tudo isso amarrado pela importância da rede de apoio e das amizades.

A protagonista dessa história é Lim Joo-kyung (interpretada por Moon Ga-young), uma adolescente de personalidade cativante e amigável que, infelizmente, sofre bullying diário. Desajeitada e sem muito senso estético, ela carrega o rosto marcado por espinhas e acaba virando alvo frequente de xingamentos e agressões físicas por parte das próprias colegas de classe.

Segredos sob a maquiagem

A situação de Joo-kyung chega a um ponto crítico logo após ela criar coragem para se declarar ao garoto por quem é apaixonada. A resposta é uma humilhação pública. Como se não bastasse, suas agressoras gravam a cena da garota aos prantos no celular, fazendo questão de reafirmar o ódio que sentem por ela. O trauma força uma mudança drástica na vida da estudante, que se muda de bairro e é transferida de escola. Na nova instituição, ela toma uma decisão radical: usar o poder da maquiagem como uma armadura para esconder qualquer imperfeição do rosto.

O medo de que a rejeição do passado se repita a motiva a manter essa fachada, tática que funciona e rapidamente lhe rende novas amizades. A tranquilidade aparente dura pouco. Um dos alunos mais cobiçados de todo o colégio descobre o segredo por trás da maquiagem e, pior ainda, sabe que ela tentou tirar a própria vida na época das humilhações. Inicialmente, o rapaz a rejeita justamente por causa dessa tentativa de suicídio. A convivência forçada e os interesses que ambos compartilham, no entanto, acabam quebrando essa barreira de aversão. Aos poucos, eles são obrigados a se aproximar, desenvolvendo uma conexão muito mais profunda. A série está no catálogo da Netflix com 16 episódios de mais de uma hora de duração e reúne no elenco astros como Cha Eun-woo, Hwang In-yeop, Park Yoo-na, Kang Min-ah, Im Se-mi e Kim Min-gi.

A aposta nos cinemas e o retorno à Riviera Francesa

Enquanto produções seriadas como “Beleza Verdadeira” garantem a hegemonia sul-coreana nas plataformas digitais, a indústria cinematográfica do país trava uma batalha diferente nos circuitos tradicionais de prestígio. Com o anúncio da seleção oficial do Festival de Cannes marcado para 9 de abril, as atenções do mercado se voltam para a possibilidade de a Coreia do Sul recuperar seu espaço nos holofotes globais do cinema. O ano de 2025 foi marcado por uma decepção histórica. Pela primeira vez em um intervalo de 12 anos, nenhum longa coreano foi convidado para as mostras competitivas ou paralelas, o que elevou drasticamente a tensão para a seleção atual.

O cenário de agora, no entanto, parece ganhar um novo fôlego. A nomeação do aclamado cineasta Park Chan-wook como presidente do júri da mostra competitiva é um marco de peso. É a primeira vez que um diretor coreano assume essa posição, evidenciando uma forte retomada da influência do país no evento francês.

Nomes de peso em busca da cobiçada seleção

Diferentes cineastas de destaque estão sob o radar de Cannes. Yeon Sang-ho, que já possui uma relação estabelecida com o festival através de trabalhos anteriores, desponta como um forte candidato com dois novos projetos. O primeiro é um thriller de sobrevivência ambientado em um prédio sob quarentena durante um surto infeccioso, produção que marca o retorno da atriz Jun Ji-hyun às telonas após 11 anos de hiato. O segundo longa é um mistério de menor orçamento focado no reaparecimento de uma criança desaparecida há nove anos. Pelo forte apelo de gênero, os especialistas consideram que ambas as obras têm mais chances de figurar nas Sessões da Meia-Noite ou nas mostras fora de competição.

Outro nome gigantesco buscando seu espaço é Na Hong-jin, que tenta emplacar seu mais recente filme, o primeiro projeto que dirige em uma década. A produção conta com um elenco internacional robusto, misturando estrelas sul-coreanas como Hwang Jung-min, Zo In-sung e Jung Ho-yeon a atores de Hollywood como Michael Fassbender e Alicia Vikander. A trama ainda é mantida em sigilo, mas a expectativa para uma estreia em Cannes já movimenta a indústria.

A diretora Jung Joo-ri também atrai muitos olhares com um drama costeiro centrado na cura e na recuperação emocional. O filme, que traz a renomada atriz Sakura Ando no elenco, vem sendo apontado como uma aposta extremamente sólida para a cobiçada mostra competitiva principal. Como Cannes costuma pesar muito a balança privilegiando obras de forte identidade autoral em detrimento de produções puramente comerciais, a grande questão agora é saber se o cinema coreano conseguirá garantir o seu lugar na seleção oficial e qual será o peso dessa nova safra artística.