Ciência e tecnologia

A visão do Guardian sobre humanos geneticamente editados: usos mais obscuros devem ser reconhecidos junto com os médicos | Editorial


eDesde o advento da tecnologia de edição genética Crispr-Cas9 no início da década de 2010, as questões éticas sobre os seres humanos geneticamente modificados, ou os chamados bebés concebidos, tornaram-se cada vez mais prementes. Já existe uma proibição legal global. Atualmente, nenhum país permite a edição da linha germinal humana (ou seja, fazer alterações genéticas num embrião que também pode ser transmitido aos seus filhos) e 70 países têm leis contra isso, incluindo o Reino Unido. Mas uma série de descobertas recentes e um novo inquérito sugerem que os cientistas e o público em geral acreditam que os seres humanos geneticamente modificados serão prováveis ​​– e até desejáveis ​​– num futuro próximo.

Dois novos estudos estão a utilizar a edição de base – uma ferramenta mais precisa do que a próxima geração do CRISPR – em embriões humanos para estudar o desenvolvimento inicial ou doenças (esta investigação é legal no Reino Unido e nos EUA, desde que os embriões sejam destruídos no prazo de 14 dias). O autor principal de um dos estudos, Dieter Egli, disse que a tecnologia ainda não estava pronta para uso em clínicas, mas o progresso “orientará a investigação responsável para, em última análise, alcançar a sua utilização segura e eficaz”. Isto resume a visão de muitos cientistas, que acreditam que o uso sistemático da edição da linha germinativa para eliminar condições genéticas é inevitável, e a principal objeção gira em torno da segurança.

As preocupações de segurança, e não quaisquer preocupações éticas mais amplas, estão subjacentes à maioria das leis contra a edição genética – tornando-as menos rigorosas do que parecem inicialmente. A posição do influente Nuffield Council on Bioethics é que a modificação de germes humanos não é moralmente questionável em si, uma posição também defendida pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA. Como salienta o bioeticista R. Alta Charo, cada novo avanço tecnológico elimina objeções sobre segurança, forçando-nos a colocar questões mais fundamentais sobre se tal tecnologia deve ser utilizada e, em caso afirmativo, em que situações. Quaisquer alterações à lei devem ter em conta estas questões e utilizações específicas, em vez de uma definição restrita de segurança.

O público parece estar à frente dos estudiosos nesta frente. Uma nova sondagem realizada pela Ipsos para o Fundo de Progresso Educacional concluiu que a maioria dos cidadãos no Reino Unido, Espanha e Países Baixos apoia a utilização da edição genética para corrigir condições genéticas potencialmente fatais, como a fibrose cística, e apoia a sua utilização em condições difíceis mas controláveis, como a asma (a Itália devolveu a maioria do seu apoio em ambas as questões). Dado que a investigação sobre fertilização in vitro sofreu tão forte oposição durante a década de 1980, isto indica um notável grau de confiança na ciência e uma nova vontade de mexer com a própria vida.

Mas modificar a linhagem humana não deveria ser um facto consumado. Existem condições genéticas que não podem ser tratadas com os métodos atuais, como a seleção de embriões, e se a tecnologia for considerada segura, só deverá ser considerada primeiro nestes casos raros. Bebês projetados não são apenas um bicho-papão. Já sabemos que em jurisdições, incluindo o Reino Unido, onde a selecção de doadores é ilegal na fertilização in vitro, alguns casais recorrerão a empresas offshore para detectar características desejáveis. De forma alarmante, já existem colaborações nos EUA entre empresas de fertilização in vitro e laboratórios que realizam investigação de desregulamentação, ilustrando quão curto é o salto potencial do tratamento médico para desenhos genéticos a pedido. Qualquer discussão deve deixar claro que, embora a regulamentação possa reduzir estas utilizações obscuras, é pouco provável que as elimine completamente.

A modificação da linhagem humana deveria permanecer proibida por enquanto, obviamente apenas por razões de segurança. Mas este argumento pode nem sempre ser verdadeiro e não podemos confiar nele para sempre. É hora de conversar sobre o que acontece a seguir.



Link da fonte