Observamos um momento crítico: a science-based leadership enfrenta desafios sem precedentes enquanto os Estados Unidos rescindiu mais de US$ 500 milhões em contratos federais para pesquisa de vacinas de mRNA. Desde janeiro de 2025, o governo americano terminou ou congelou centenas de bolsas nas áreas de saúde, clima e meio ambiente. Mais alarmante, o Centers for Disease Control and Prevention foi ordenado a interromper o trabalho com a Organização Mundial da Saúde. Dado que as tendências atuais de financiamento podem levar a 9,4 milhões de mortes adicionais até 2030, entender o que é scientific leadership torna-se essencial. Neste artigo, exploramos como a liderança científica resiste às pressões políticas e por que a science of leadership nunca foi tão crucial para nossa sobrevivência coletiva.
O Retrocesso Global contra a Ciência Acelera em 2025
Estados Unidos Cortam US$ 500 Milhões em Pesquisa
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, classificou os cortes americanos como um erro decisivo. A decisão de eliminar quase US$ 500 milhões destinados à pesquisa de RNA mensageiro representa um abandono da tecnologia que viabilizou vacinas contra Covid-19 e possui potencial no tratamento de cânceres. O Departamento de Saúde e Serviços Humanos reduziu planos para desenvolver vacinas de empresas como Moderna, Pfizer e Sanofi. Paralelamente, os Institutos Nacionais de Saúde anunciaram redução de 15% nos custos indiretos das bolsas. Em maio de 2025, Trump propôs cortes superiores a US$ 945 bilhões no orçamento federal, mirando drasticamente áreas de saúde e educação. A Administração de Seguro Social cancelou uma bolsa plurianual de mais de US$ 405 milhões destinada a seis centros acadêmicos. O governo congelou ou cancelou 5.844 bolsas de pesquisa apenas no ano passado.
Outros Países Seguem o Exemplo Americano
Enquanto isso, a onda de restrições se espalha. O Reino Unido, Alemanha e Canadá implementaram cortes na ajuda externa que entrarão em vigor este ano. O Canadá lançou um programa de US$ 5,2 bilhões com duração de 12 anos para atrair cientistas. A China acelerou processos de realocação para pesquisadores que perderam financiamento americano. Em maio, a União Europeia criou o programa ‘Escolha a Europa para a Ciência’, de 500 milhões de euros. A ajuda internacional para saúde enfrentará redução superior a 30% em 2025 comparado a 2023. Aproximadamente 70% dos países de baixo e médio rendimento registram interrupções imediatas nos serviços de saúde.
Impacto nos Sistemas de Saúde Global
A OMS vive a maior interrupção no financiamento global da saúde da história. A organização enfrenta lacuna de quase US$ 3,5 bilhões neste ano. Consequentemente, propôs cortar o orçamento para 2026-27 em 21%, de US$ 29,3 bilhões para US$ 23,2 bilhões. Um quarto dos custos salariais não será coberto pelos próximos dois anos. Um estudo do Instituto de Saúde Global de Barcelona estima 22,6 milhões de mortes até 2030 se os cortes persistirem, incluindo 5,4 milhões de crianças menores de cinco anos. A análise projeta entre 670 mil e 1,6 milhão de mortes anuais resultantes desses cortes.
Por que a Liderança Baseada em Ciência (Science Based Leadership) é Crítica Agora
O Que Define Scientific Leadership em Tempos de Crise
A liderança decisiva, respeitosa e transparente diante de crises graves pode reparar danos e restaurar a confiança pública. Organizações que consideram crises como oportunidades para agir de forma transparente tendem a aprender, crescer e se desenvolver. A forma como respondemos a problemas fornece informações claras sobre nossa cultura. Essencialmente, crises são manifestações extremas de problemas subjacentes que criam condições latentes nas quais emergências podem surgir. A crise eleva a necessidade de grande liderança tanto pelo sucesso em sua presença quanto pelo fracasso em sua ausência.
Abordagem One Health como Modelo de Liderança
A abordagem Uma Só Saúde reconhece a interconexão entre a saúde humana, animal e ambiental. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade e poluição ampliam riscos de zoonoses e vetores. O desmatamento e as queimadas provocam eventos extremos, como secas e enchentes, favorecendo doenças de transmissão hídrica, como leptospirose e hepatites. Cerca de três em cada quatro doenças infecciosas emergentes em pessoas se originam de animais domésticos ou selvagens. A Aliança Quadripartite, formada por OMS, OMSA, FAO e PNUMA, visa fortalecer a cooperação interinstitucional.
África Demonstra Compromisso com Evidências
Angola demonstra que políticas baseadas em evidências científicas geram resultados concretos e transformadores. O país criou o Centro Nacional de Operações de Emergências de Saúde Pública. Moçambique defende reformas urgentes para assegurar que a cooperação multilateral reforce sistemas nacionais de saúde resilientes a crises. O governo moçambicano fortaleceu o Instituto Nacional de Saúde, expandindo laboratórios em todas as províncias. O África CDC recentemente elegeu o instituto moçambicano como centro de excelência para o continente africano.
Como Líderes Científicos Resistem às Pressões Políticas
Diversificação de Fontes de Financiamento
Pesquisadores brasileiros diversificam recursos após reconhecerem que o FNDCT investiu R$ 19,96 bilhões em 2023, mas não sustenta sozinho o ecossistema científico. O país investe apenas 1,2% do PIB em pesquisa, distante dos 1,6% necessários para equiparar-se a Espanha e Itália. Essencialmente, R$ 173,5 bilhões deveriam originar-se do setor privado, enquanto R$ 75,1 bilhões viriam de fontes estatais. Modelos como Embrapii e FAPESP exigem contrapartida empresarial igual ou superior ao investimento público, patrocinando efetivamente a pesquisa universitária. A filantropia científica emerge como alternativa, inspirada pela plataforma VAST nos Estados Unidos, que estrutura redes de colaboração para blindar pesquisas contra mudanças governamentais abruptas.
Fortalecimento de Capacidades Regionais
O Programa de Capacitação e Desenvolvimento Regional alcançou 679 municípios brasileiros, certificando 6.319 participantes de 10.774 inscrições. A estratégia democratiza conhecimento sobre desenvolvimento territorial, superando em 13% a meta prevista para 2025. Mesmo na região Norte, com desafios de conectividade, o programa atingiu 94% da meta estabelecida. Consequentemente, agentes públicos capacitados fortalecem a capacidade institucional do Estado nos territórios.
Proteção de Infraestruturas de Dados e Pesquisa
A segurança de infraestruturas críticas ganhou prioridade após 2001, quando países identificaram instalações estratégicas para proteção prioritária. No Brasil, o Decreto nº 9.819 de 2019 inseriu essa atividade no Conselho de Governo. Infraestruturas de pesquisa requerem acompanhamento permanente para garantir funcionamento mesmo sob restrições.
Comunicação Pública da Ciência
A comunicação científica centraliza o processo no cidadão, estabelecendo diálogo e garantindo direito à informação. Universidades federais estruturam políticas específicas, embora apenas uma mencione explicitamente desinformação. A divulgação científica ocupa espaços e disputa narrativas contra movimentos anticiência que ressurgiram recentemente.
O Futuro da Liderança Científica Global Exige Ação
Redes Científicas Não São Facilmente Substituíveis
As redes de pesquisa impulsionam a criação do conhecimento através do intercâmbio de informações e da junção de competências de grupos que unem esforços na busca de metas comuns. A colaboração científica oferece uma fonte de apoio para melhorar o resultado e maximizar o potencial da produção científica. Para países com menor nível de desenvolvimento científico e tecnológico, estar inserido em uma rede de colaboração torna-se fundamental. A rede de colaboração em pesquisa sobre Covid-19 cresceu em ritmo acelerado e já envolve cientistas de 166 países.
Autoritarismo Copia Ataques à Ciência
Treze acadêmicos de 11 países denunciaram que os Estados Unidos tornaram-se um regime autoritário e hostil à ciência. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência respondeu à ditadura militar afirmando que não há ciência sem liberdade. Regimes autoritários utilizam censura e repressão como instrumentos de controle social, cultural e político. Dos 61 cientistas com depoimentos publicados no livro Cientistas do Brasil, mais da metade foi atingida diretamente por ações ditatoriais.
Construindo Resiliência no Ecossistema de Pesquisa
Resiliência representa a capacidade de antecipar, preparar, responder e se recuperar de ameaças multirriscos significativas com o mínimo de danos. A resiliência dos sistemas de saúde deve ser desenvolvida continuamente, e não apenas quando crises ocorrem. O desenvolvimento de políticas baseadas em ciência e tecnologia concatenadas a um sistema de apoio à decisão tornou-se fator fundamental para a governança de problemas complexos.
Conclusão
Observamos que a liderança científica enfrenta sua maior provação. Os cortes de financiamento representam ataques diretos à nossa sobrevivência coletiva. De fato, redes de pesquisa, capacitação regional e diversificação de recursos demonstram que a ciência resiste. A África nos ensina resiliência enquanto regimes autoritários copiam estratégias anticiência. Nossa resposta determina o futuro: defender a liberdade científica tornou-se imperativo para proteger milhões de vidas nas próximas décadas.



